— E desde quando você tem essa dupla personalidade? – perguntou Érik
— Eu não sei. Digo, a impressão que eu tenho é que sempre estive ali, como ele sempre esteve ali, mas que nem sempre nós existimos.
Érik olhava bem nos olhos de Thiago e ele parecia estar dizendo a verdade. De uma coisa o cientista não tinha dúvidas: havia realmente duas pessoas, uma completamente diferente da outra, dentro daquele corpo. Ele só não sabia como, por que ou quando havia ocorrido essa separação de personalidade. Tentou considerar a hipótese de que eles já existiam desde a criação da consciência, mas achava isso muito improvável.
E uma coisa era extremamente incomum no caso de Diego, ou no caso, de Thiago. Um tinha a consciência da existência do outro. Normalmente o que ocorria, estudou Érik, era a ignorância da existência de uma outra pessoa, levando os sofredores dessa doença a acharem que são loucos, ou sonâmbulos, não se lembrando de nada do que haviam feito ou falado. Contudo, Thiago parecia inteiramente consciente da existência de Diego, e pelo jeito, de algumas ações também.
Enquanto isso, Bill se encontrava em sua sala pensativo. Diego estava estranho e ele não sabia dizer o que era. Mas ele perguntaria a Érik sobre o ex-presidiário assim que sua consulta terminasse. Será que aquela era surpresa da qual a voz anunciou para ele?
Alguém bate em sua porta e ele manda entrar. Sophia aparece, carregando dois papéis em suas mãos.
— Aconteceu alguma coisa? – ele pergunta
— Eu achei algo que você deveria saber.
Bill fez sinal para que a garota entrasse. Era a segunda vez que aquela garota entrava naquele lugar, mas era a primeira que realmente reparara nele de fato: Uma sala bem confortável na verdade, com algumas estantes de madeira cheia de livros, assim como a parede que era revestida de madeira, também era a mesa de trabalho do chefe dos Missionários. Um grande tapete vermelho, não daqueles que se estendiam às celebridades, mas um quadrado que combinava com o ambiente, além dos dois sofás verdes escuros, um de três e outro de dois lugares. Ela foi caminhando devagar até a mesa de Bill, um pouco tímida, e colocou os dois papéis na frente de seu chefe.
Eram os dois papéis de procurados, de Diego e de Romeo. O chefe abriu bem os olhos e analisou ambas as listas.
— Também tem a de Klaus. – falou Sophia. – Ele vale cinco mil e é acusado de roubar as armas douradas da família Armadouro.
— Aham. – disse Bill, confirmando que ouviu a garota, mas ainda dando mais atenção aos cartazes.
Logicamente dentre os dois cartazes, o que mais chamou a atenção foi o de Diego, por todas as suas peculiaridades.
Daí em diante, nada demais ocorreu. Somente que naquela noite todos foram apresentados a Thiago, a outra personalidade de Diego. Somente Klaus da equipe não sabia, pois era o único que não estava presente naquele prédio.
Constatou-se verdadeiro exatamente aquilo que Érik pensou. Thiago era uma pessoa completamente diferente de Diego, em todos os sentidos. Uma pessoa mais calorosa, receptiva, engraçada e que conseguia falar, conversar, e ser sociável. Até mesmo Aboré havia esquecido do ocorrido na noite anterior e conversou bastante com Thiago, como duas pessoas que se deram bem desde o começo.
Enquanto isso, naquela noite, uma sombra se movia pela rua “Guimarães Délio”, uma rua ao norte de Cidade Doeste que guardava casas de pessoas de classe média. Um sujeito que era barbudo e estava vestido em trapos caminhava tranqüilamente, mas decidido. A rua pouco iluminada não mostrava direito os traços daquela figura que tinha um objetivo obscuro dentro de si.
Ele parou em frente a uma casa, que a princípio não possuía nada de diferente das outras. Olhou bem para os lados e em seguia para toda a casa. Retirou três pequenos objetos iguais de seu bolso e atirou em diferentes pontos daquela casa. Quando eles atingiram alguma parte sólida, começaram a liberar uma pequena fumaça que foi se espalhando até penetrar nos recintos da casa.
Escrito por Antero Filho às 13h52
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