No capítulo anterior. . .
Romeo e Klaus estavam no meio da missão de proteção de Carolina Sanchez, quando foram surpreendidos pelo grupo de Kalangus. Quando Julieta estava pronta para matar a protegida, Romeo entrou na linha de tiro e ela foi incapaz de puxar o gatilho. Aproveitando a situação, Carolina tenta escapar. Após muita correria e tiros, Lagarto conseguiu matar Carolina. Em seus momentos finais, ela tenta falar sobre o passado de Romeo, mas diz apenas palavras sem nexo, que não esclarecem nada ao pobre rapaz, que vê o seu mundo cair novamente.
Sem músicas neste capítulo
J.&.R - Quando a lua se põe
Capítulo cinqüenta e três: A história da Guerra Civil
Escrito por Antero Filho às 22h21
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Quase saindo de Cidade Doeste, rumo ao outro lado do país, Aboré viajava de trem com Sophia e havia acabado de prometer à garota que contaria a verdadeira história sobre a guerra civil de Cidade Delleste.
A garota ficara calada e atenta à história que Aboré começaria a contar. Então, ele respirou fundo e olhou para cima, como se quisesse se lembrar de cada detalhe da história.
— Você estudou?
— Estudei. – disse a garota, um pouco envergonhada. – Quer dizer, mais ou menos, até o primeiro colegial. Mas eu larguei a escola.
— È. Eu também. – disse Aboré. – Acabei largando a escola. Mas, perguntei porque provavelmente você aprendeu um pouco da história da Cidade Delleste. Eu nasci lá, por isso não precisamos ir pra escola pra saber o que aconteceu antigamente.
Sophia concordou, mas não disse absolutamente uma palavra. Percebendo que ela esperava que ele falasse, Aboré continuou com o seu monólogo.
— Bom, a região onde fica Cidade Delleste sempre foi cheia de ouro. Quando chegaram os colonizadores e acharam todo aquele ouro, começaram a se mudar para o interior, e tudo mais. Isso foi na época que começaram a trazer escravos para Silbra. Isso tudo você aprendeu na escola, né.
— Sim.
— Então. Trouxeram muitos escravos para o lugar e logo começou a formar uma elite. Os brancos que tinham ouro, morando em uma região rica, e os escravos negros que trabalhavam para esses senhores, se juntando tudo no lugar mais pobre. Então Cidade Delleste é bem dividida entre os brancos e os negros. Mesmo depois que a escravidão foi proibida no mundo, ainda tinha essa separação. E se ainda existe algum racismo nesse país, na região de Cidade Delleste isso é muito maior.
— Maior?
Escrito por Antero Filho às 22h15
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— Sim. E essa exploração, essa desigualdade continua até hoje. Mesmo a relação não sendo mais de escravo e senhor, ainda o preto é pobre e o branco é rico. Ainda o preto trabalha para o branco, paga pouco e explora muito. Anos atrás, eu tinha uns 14 anos, meu irmão mais velho montou junto com alguns amigos dele um grupo chamado RN, Resistência Negra.
— E aí?
— Ela visava acabar com essa tirania branca e dar mais chances às pessoas negras. Nisso, todos os integrantes concordavam, só não concordavam entre si com o modo como fariam isso. Meu irmão e mais um pessoal queria que aquilo fosse por meio de manifestações pacificas, pelo menos a maioria, e usar a violência só quando precisasse. Outro grupo mais radical queria partir para uma luta armada desde o começo. E quando eu fiquei sabendo de tudo, até chegava a discutir com meu irmão porque achava que eles deviam matar todos mesmo.
— Você achava isso?
— Achava. – concluiu Aboré, um pouco decepcionado. – Você não tem idéia do que é ser negro em Cidade Delleste. Parece que existem dois países ali dentro.
Sophia ficou quieta, e o grandão logo retomou o rumo da história, para não perder o foco.
— Aí começaram as passeatas e a RN ficou conhecida. Os brancos e a elite se armaram e se protegeram e começaram a ir atrás dos líderes, entre eles o meu irmão. Os negros foram se unindo e tornando o movimento cada vez mais forte. Começou a guerra civil de Cidade Delleste.
Aboré respirou fundo e continuou:
— Passou três anos, entre as passeatas e os conflitos entre a polícia e a RN. Eu já tinha dezessete anos e já estava participando do movimento. Nossa avó era contra, tadinha. Ela não gostava que nós dois fossemos fazer tudo isso. Tem medo até hoje. Enfim.
— Eu participava do movimento. – continuou ele. – E queria mesmo era batalhar e defender os nossos direitos e tudo mais, mas variávamos em passeatas pacíficas em certos lugares e tentar resoluções com lutas e a resistência física contra o exército quando precisava. Até que, bom, meu irmão foi assassinado.
— Assassinado?! Meu Deus! – espantou-se Sophia
— Sim. Acharam a localização do meu irmão e deram cinco tiros no peito dele. Eu estava abrindo a porta de casa quando ele morreu do lado de fora, assim, uns três ou quatro metros da porta. Depois disso, morreram todo mundo que defendia uma resolução mais pacífica. E aí que eu meio que perdi o rumo da coisa.
— Por quê? – perguntou a garota
— Percebi que era uma traição de pessoas da própria RN que queriam usar o movimento para tomar o poder. A partir daí foram acabando as passeatas e virou realmente uma guerra, onde as pessoas começaram a tomar o poder do local. Ficou dividido o território entre a RN e o governo elitista. E a partir daí eram grupos que se odiavam e quem estivesse no meio tinha que escolher um dos dois lados.
— E você ficou na RN, né?
— Não. Curiosamente não. Depois do que aconteceu com o meu irmão, e depois que as coisas ficaram mais difíceis ainda lá em casa, tive que procurar algo que sustentasse a mim e a minha avó. Meu irmão era alguém que não era muito querido na RN e por isso eles pouco me apoiavam. Virou outro grupo político de grande expressão. Então fiz uma das mais difíceis escolhas da minha vida.
Escrito por Antero Filho às 22h15
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— Qual? O quê?
— Entrei para o exército. Pagava relativamente bem e nos garantia a sobrevivência, pelo menos na questão financeira. Mas não medi muito as conseqüências quando fiz isso e acabei me ferrando.
— Por quê?
— Porque eu era odiado pela RN por ter ido pro exército e era odiado no exército pelos oficiais, que eram grande maioria brancos. Os cabos, que são a parte mais baixa do exército, até que tinha alguns negros, que o pessoal da resistência chamava de cães do exército, mas os oficiais de elite eram todos brancos. Eu comecei a odiar todo mundo, porque ninguém prestava. Nem os brancos elitistas e nem os negros revolucionários loucos pelo poder. Eram todos farinha do mesmo saco.
— Mas o que aconteceu depois?
— Eu conheci Bill e acabei saindo da cidade, era o melhor a se fazer, até para a minha avó. Gilmar Gavião, que virou o líder da RN, continua até hoje e existem batalhas e sangue até hoje. Por isso eu não queria que você viesse comigo para esse lugar. Ninguém, a não ser a minha avó, gosta de mim lá e você estando comigo é perigoso. Mas não se preocupe, você vai ficar na casa da minha vó, que se mudou prum lugar escondido e ficará protegida enquanto eu encontro essas duas mulheres aí.
Sophia olhou para baixo depois de ouvir a última parte. Sentiu uma mescla de decepção e alívio. Decepção porque, mesmo estando com medo, ela queria participar da missão, mas por outro lado, sentiu alívio por saber que estaria segura.
E os dois prosseguiram a viagem sem muita comunicação. Sophia começou a contar sobre uma história de Agatha Christie que se passa em um trem, sobre um assassinato, e Aboré se mostrou muito interessado, mas não conversaram mais do que isso no primeiro dia de viagem.
O trem começava a se aproximar de Cidade Docentro, onde fariam a primeira parada. Deveriam alcançar a cidade pela tarde do dia seguinte.
A noite tomara conta da região e o trem continuava seu caminho tranqüilamente. Enquanto pensava em sua vida e em tudo o que tinha vivido, Aboré olhava para a janela com ar de nostalgia, que preenchia seus pulmões e o transportava para uma época onde seus ideais eram outros. Onde sua maneira de ver o mundo era diferente do que era naquele momento.
Sophia estava dormindo ao seu lado, mas não parecia estar tranqüila. O missionário começou a olhar para ela, que fazia uma expressão de sofrimento.
Aboré passou a mão no ombro dela, como se tentasse acordá-la daquele sonho, mas desistiu. Apenas ficou olhando para ela, enquanto ela se encolhia.
Uma lágrima escorreu de seu olho e a expressão de dor continuava.
Algo que parecia tão profundo, tão enraizado e tão sofrido que Aboré teve a impressão de que não seria acordando ela que ele conseguiria livrá-la de tudo aquilo.
E, mesclando aquilo com os pensamentos de sua infância, notou uma coisa que a princípio podia parecer uma conclusão idiota, mas não era. Ele não era o único que sentia dores naquele mundo.
Enquanto isso ele se transportava novamente para o mundo da sua infância, e acabou por adormecer com esses pensamentos em mente, segurando firme o pedaço de papel que Bill havia lhe dado antes de viajarem, que continha o nome das duas futuras integrantes dos Missionários.
“Michele Golgat”
“Bárbara Golgat”.
Escrito por Antero Filho às 22h15
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