ABORÉ
Escrito por Antero Filho às 00h03
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No capítulo anterior. . .
Aboré e Sophia estavam viajando para Cidade Delleste. O missionário então decide contar para a garota tudo o que sabia sobre a história da Guerra Civil de Cidade Delleste, o racismo, a criação da RN, o destino do seu irmão, seu ingresso no exército e a atual situação de tudo. Isso faz com que ele volte às recordações de sua infância, que refletem uma pessoa confusa pelos acontecimentos. Antes de cair no sono, ele vê Sophia dormindo, sonhando maus sonhos, sofrendo e chorando.
Sem músicas neste capítulo
J.&.R - Quando a lua se põe
Capítulo cinqüenta e quatro: Um passado em preto e branco
"Será a aparência ou a essência o que difere as pessoas?"
Escrito por Antero Filho às 00h00
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Fazia um lindo dia em Caratoa, uma cidade de Delleste. O centro da cidade estava no alvoroço do dia a dia e a grande catedral fazia sombra ao comércio daquela grande praça. Muitos comerciantes vendiam suas frutas, verduras, sapatos, utensílios de cozinha e até animais.
Aboré, com seus treze anos de idade, caminhava entre as pessoas, entre elas brancos e negros, carregando uma sacola com cenouras que comprava para a avó. Estava mergulhado em seus pensamentos e coisas sobre a escola, quando viu, na frente de um bar, uma carteira caindo da bolsa de uma mulher.
Olhando para aquela cena, na qual ninguém além dele havia reparado, o garoto resolveu devolver a carteira para a mulher. Correu até o lugar, passando por entre as pessoas, sem trombar com nenhuma, enquanto a sua sacola balançava de um lado para o outro.
Pegou a carteira do chão e olhou em volta em busca da mulher. Vasculhou todo o local com o seu olhar e achou a dona: Mulher de 1,70m, cabelos louros, pele branca.
Enquanto o garoto andava ao encontro dela, a mulher procurava em sua bolsa por algo perdido. Ela se dera conta de que havia perdido a carteira e começava a procurá-la em todos os lugares, mas sem achar. Quando Aboré chegou perto da mulher, que viu o objeto perdido nas mãos do garoto, ela foi tomada por um sentimento de raiva e tirou violentamente a carteira das mãos do menino, que se assustou com a atitude e tirou a mão, como se a mulher fosse arrancá-la junto com a carteira.
— Me dá isso aqui, muleque!
E, recuperado o objeto, a mulher saiu andando com passos firmes, se afastando do garoto, extremamente nervosa.
A voz áspera, a atitude agressiva e os olhos odiosos jogaram todo o peso da realidade daquela cidade em cima daquele garoto de treze anos, que não conseguia compreender o que havia acabado de acontecer.
Escrito por Antero Filho às 23h49
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Aboré acorda no trem. Olha para o lado e vê Sophia, encarando a paisagem pela janela. Eles já saiam do estado de Doeste e já entravam no território do estado de Docentro.
O trem era grande e o vagão onde se encontravam era bastante espaçoso. Estavam na classe econômica, e esta já era muito confortável, com uma fileira de dois bancos almofadados para cada lado do corredor e janela de ambos os lados. Aboré se ajeitou na cadeira, encarou o pequeno pedaço de papel que segurava nas mãos. Olhou depois para Sophia, que ainda olhava para o lado de fora do trem, como quem voa em seus pensamentos.
— Faz tempo que você acordou? – ele perguntou
— Não. Eu acho que uns vinte minutos. – ela respondeu sem entusiasmo.
O grandão teve uma enorme vontade de perguntar sobre a noite passada, se ela se lembrava do que estava sonhando. Se ela teria algum buraco em seu coração ou simplesmente se algo à estava atormentando, mas achou que ela não se sentiria a vontade para se abrir.
“Pode ser o medo de enfrentar a missão”. – pensou ele – “Bill não levou em consideração de que ela é apenas uma criança”
— Mas o que vamos fazer? Nós somos apenas crianças.
— Fale por você, Carlinhos. – disse Aboré, um pouco irritado.
E naquele canto de Caratoa, o grupo de garotos se reunia para discutir. Havia ali três garotos e uma garota que sofriam a rejeição pela outra classe daquela cidade. A menina tomou a palavra.
— Mas o seu irmão e os outros não vão deixar a gente entrar no movimento. – disse Vânia – A gente só tem quinze anos e eles falaram que não vão deixar antes da gente fazer dezoito.
— Eles são uns idiotas. – resmungou Aboré. – Quando eles precisam de mais gente pra ajudar, eles miguelam a nossa ajuda.
— A gente quer ajudar, mas o que a gente pode fazer? – disse Breno, o outro garoto. – Se meu pai descobrir que a gente anda se metendo com isso, ele me mata.
— Seu pai não é a favor do movimento? – perguntou Aboré.
— Ele é a favor, mas ele tem medo, eu acho. Tem medo de tudo virar uma bosta.
— Taí! Oh! Se todo mundo ajudasse, não ia virar uma bosta. – se exaltou Aboré - Por isso eles não tão conseguindo, droga!
Os outros três ficaram quietos, apenas olhando para o garoto. Ele já era grande aos seus quinze anos e já impunha certo medo, realmente.
— Pode até ser que a gente não consiga nada com isso. – começou Aboré. - Pode até ser que aqueles cuzões de ouro se dão bem nisso tudo. Pode até ser que eu morra. Mas eu vou morrer com a consciência minha tranqüila, porque eu lutei até o fim e sem medo. Vocês fazem o que vocês quiserem.
E dizendo aquelas palavras, ele saiu irritado dali.
— E você, Aboré? – perguntou Sophia, que finalmente se libertara do mergulho de seus pensamentos – O que você acha de tudo isso?
Ele respirou fundo. Aquela pergunta para ele era tão difícil de responder como explicar a uma criança como nascia uma criança. Ele já pensou, já agiu, já achou, já quis tantas e tantas coisas, que não conseguia achar um meio de explicar para aquela garota o que ele, no fundo de seu coração, pensava de tudo aquilo.
Escrito por Antero Filho às 23h49
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Na realidade, nem mesmo ele sabia o que pensar. Ele queria ajudar, sabia as necessidades das pessoas que conviveram com ele, mas ele discordava de muitas coisas, inclusive ideológicas. Se desanimara com o rumo que tomou a revolução e não acreditava em mudanças profundas naquela sociedade. Pensava se tudo aquilo fazia sentido. Pessoas se matando, pessoas se ferindo, defendendo suas nobres causas mas com seus interesses em jogo.
Não tinha mais ânimo de lutar. Não tinha mais vontade de defender ninguém. Depois que descobriu as verdadeiras intenções da atual RN, perdera a esperança nas pessoas do mundo. Aqueles que deviam se conscientizar porque sofreram e tentar transformar o mundo num lugar mais justo, estava simplesmente querendo inverter a situação e tomar o poder, para dar continuidade a tudo aquilo que já estava sendo feito antes.
Diante de um turbilhão de pensamentos que transcorreram em sua mente, Aboré respondeu com toda sinceridade que poderia oferecer.
— Não sei, Sophia.
— Como não sabe? Você é a favor? É contra? O que?
— Eu não sei. – ele respondeu, olhando para o teto, pensativo. – Juro. Eu não sei.
Aboré estava na sua casa com sua avó, ajudando-a com a comida. Mais crescido, tinha quase dezoito anos, seu corpo maior e mais forte e seu olhar ainda era o mesmo, determinado e firme.
A casa era muito humilde, pequena, com dois quartos e uma salinha minúscula, onde havia três cadeiras de madeira e uma mesinha. A pintura da casa estava toda gasta e o telhado tinha alguns furos. Talvez por lá passavam alguns ratos ou outros animais, mas não era visível. O que eles tinham de visível era a estante, que não era grande mais completa com livros de autores revolucionários famosos.
Já era altas horas da noite, quando uma sombra atravessa a porta de entrada da casa. Um homem magro, alto, e muito machucado, com marcas de lesões por todo o corpo. Ele entrou na cozinha, procurando uma bolsa para encher de água.
— Ale, querido, o que sucedeu com você. – perguntou a avó, depois de ver o estado deplorável do neto, olhando para ele em uma mistura de horror e pena.
Aboré saiu da cozinha, aparentemente com raiva.
— Você precisa parar com isso, meu bem, por favor. Você pode acabar morrendo. – dizia a avó, aflita. – Eu vou preparar alguma coisa pra cuidar e tudo isso.
Alexandre não respondeu ao apelo da avó. Ele simplesmente ignorou. Mas o seu irmão o preocupava. Vendo a sua reação, foi para a sala, tentar conversar com ele.
— Aboré, eu não. . .
— Quando você vai ver que você está errado? – perguntou Aboré, não deixando o irmão terminar a frase. – Que ninguém vai ouvir o apelo de vocês? Que passeatas nunca levarão a lugar nenhum.
— Eu entendo o que você sente, mas não é desse jeito que se mudam as coisas, Aboré. Nós temos que continuar desse jeito se a gente quer. . .
— . . . Se fuder de uma vez, é isso. – completou ele, com um pensamento obviamente diferente do que seu irmão ia dizer. – Ninguém vai dar nada pra gente porque a gente ta pedindo, Ale. A gente tem que pegar as armas e matá todo mundo, só assim os caras vão ter medo da gente e vão dar o que a gente quer. Gilmar tem razão.
— Não tem! – disse o irmão, firme. – Se a gente fizer isso vamos ser iguais a eles, não entende?
— Foda-se! Antes a gente lá do que eles!
— Não é isso que eu quero! Eu quero é mudar essa merda toda! Eu quero é acabar com isso! Eu não quero ficar igual a eles!
— Você é um fracassado, Ale. Pára com essa idiotice de igual a eles! A gente tem que lutar de verdade se quiser alguma coisa!
Escrito por Antero Filho às 23h49
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E dizendo aquilo, Aboré saiu da sala e foi para dentro da casa. Alexandre ficou onde estava, achando que não devia falar com o irmão, naquele momento. A avó entrou na sala, triste depois de ver a discussão dos dois, mas carregando uma bolsa com água e uns remédios na outra mão, para cuidar do seu neto.
Depois de alguns segundos de silêncio, e a avó tentando tratar do neto, ele pergunta:
— Vó, a senhora e o Aboré estão fazendo a comida?
— Estamos querido. Já já está pronto.
— Eu vou pegar lenha pro fogão, então.
— Não precisa, amor. Você ta todo machucado, deixa que o Aboré pega mais tarde.
— Pode deixar, vó. Não tô tão ruim assim. Ainda posso pegar lenha. Deixa aí os remédios, que eu passo mais tarde.
Ele se colocou de pé e saiu pela porta. A avó, sem saber o que fazer, foi até a cozinha cuidar do jantar. A senhora ficou olhando para as panelas, temperou um pouco a comida, mas não conseguiu ficar ali por muito tempo. Ela estava nervosa e aflita, e foi ter com Aboré, em seu quarto.
— Aboré, querido. – chamou a avó
— Hum. – respondeu ele, sem qualquer entusiasmo, sem ao menos olhar para a porta.
— Ajuda o seu irmão. Ele está pegando lenha lá fora pro fogão. Vai lá, sabe que ele ta todo machucado.
— Já to indo, vó. – respondeu Aboré.
Ele estava envolto em seus pensamentos. Estava nervoso com seu irmão, na realidade. Como ele não conseguia ver o mais óbvio? Como ele não percebia que ninguém daria nada? Que eles tinham que conquistar tudo na força, se quisessem algo?
Queria lutar, queria defender todos aquele de que gostava, queria que todas as pessoas próximas tivessem uma vida digna e ficava furioso com essas tentativas frustradas do seu irmão.
Levantou-se. Iria ajudá-lo a recolher a lenha para o fogão. “Recolher lenha” – pensou – “O nosso fogão ainda é a lenha, enquanto o fogão daqueles filhos da puta são de gás”.
Foi caminhando até chegar à porta e abri-la, e o que viu o marcou para sempre:
Seu irmão estava voltando para casa, com pedaços de madeira no braço, e Aboré avistou uma sombra ao longe.
Tiro!
Tiro!
Tiro!
Tiro!
Tiro!
Alexandre caiu no chão e os pedaços de madeira voaram da sua mão. Aboré correu desesperado para socorrer, mas já era tarde. Alexandre levara cinco tiros nas costas, seu sangue se derramava pelo chão, e sua alma partira.
Aboré abraçava o irmão e chorava, chorava e chorava. Não conseguia acreditar no que tinha acontecido. Não conseguia acreditar que as últimas palavras que disse ao irmão foram para chamá-lo de fracassado.
E antes que sua avó abrisse a porta de casa e fosse chorar junto com ele, Aboré pedia perdão desesperadamente ao seu irmão.
Escrito por Antero Filho às 23h48
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