Sentia-se como se sentiu na primeira vez que encontrou o falso andarilho: totalmente incapaz. E se odiava por isso. Tentava parar para pensar, já que não conseguia mais agir por instinto. Ele tinha que achar o tal do homem careca Orlando Alguma Coisa, que tinha o nariz esquisito. Não tinha tempo para ficar de brincadeira com quem quer que fosse. Precisava sair dali o mais rápido possível.
Soltou a mão esquerda do machucado e segurou a arma com a mesma mão. Seu ombro doía mais, contudo possuía um melhor poder de ataque já que segurava a pistola com a mão.
Do alto veio a voz:
— Largue isso, garoto! Não queremos te matar. Se não reagir, deixaremos você inteiro. É minha palavra.
Ótimo. Caçadores de recompensa. Não tinha mesmo melhor hora para aparecerem. Pelo que o tal do fulano falou, ele não estava sozinho.
Mas podiam ter vinte, trinta, quarenta pessoas! Foda-se! Ele jamais se entregaria.
Romeo olhou para cima, de onde viera o som. Um bigodudo estranho o encarava, protegendo metade de seu corpo em um batente de uma das janelas daquele beco. O seu sangue fervia, mas não sabia o que fazer. Resolveu levantar a sua arma na direção do homem que lhe havia mandado se render.
Mais uma vez seu instinto lhe guiou. Um dardo passou pelo lugar onde milésimos de segundo antes estava sua cabeça. O missionário havia se jogado para o lado esquerdo, desviando do ataque, mas assim que se recompôs foi atingido na cabeça por algo grande e de metal, sendo arremessado para trás. Era uma lata de lixo, arremessada pelo bigodudo.
O careca que o acompanhava possuía uma pistola de dardos e havia atirado em Romeo pouco antes, na posição em que estava. Mal seu alvo recebeu a lata de lixo arremessado pelo seu parceiro, o careca já atirou mais dois dardos.
Romeo se desviou como pôde dos ataques do careca, sendo que até aquele momento ele não conseguira ver quem era a segunda pessoa que atacava. Contudo, já se postou de pé após a esquiva e atirou.
A dor no ombro direito se intensificou, mas a sua investida surtiu efeito. A arma de dardos do careca foi arremessada para longe.
Aproveitando com rapidez a situação, Romeo correu na direção de seu adversário, passando por ele. Com o braço esquerdo envolveu o seu pescoço, apontando a arma com a mão direita para sua cabeça. Em uma investida de segundos, o careca estava refém de Romeo.
‘Tenho que tirar meu chapéu” – pensou o caçador de recompensas – “Não é qualquer um que faz isso”.
O bigodudo desceu do andar onde estava. Naquele momento, Romeo estava de costas para a saída, segurando o careca, enquanto que o outro caçador se encontrava mais longe da saída.
A situação não durou muito tempo daquele jeito. O careca deu uma cotovelada forte no baço de Romeo, que, despreparado para aquela reação, sentiu o golpe. Na seqüência, o caçador de recompensas deu uma cabeçada com a parte de trás de sua careca, desnorteando e tomando a vantagem que há poucos segundos era de Romeo.
Neste momento, o pensamento rápido e a sua agilidade salvaram o missionário. Com o golpe, Romeo se projetou para trás e alcançou a saída do beco em poucos instantes. Sem querer perder o seu alvo, os caçadores correram, mas ao chegar na passagem por onde o cabeludo se mandara, já era tarde. Não se via mais o homem de 30 mil reais.
— Perdemos ele.
— Pudera. – disse o careca, passando a mão pelo pescoço. – Esse cara é foda, mas está ferido. Nós vamos encontra-lo. Não pode ir longe.
Ambos checaram as suas armas, recarregaram e partiram.
Romeo não sabia, se parasse para pensar, como havia conseguido sair da vista dos seus perseguidores em tão pouco tempo. A ferida em seu ombro já não sangrava mais, mas ainda incomodava. O sol já subia, anunciando a manhã na cidade. Romeo andava o mais rápido que podia por entre os becos.
Precisava encontrar um outro careca do nariz esquisito e sua maldita maleta de merda. O que ele não daria para ter suas armas de volta.
Enquanto isso, Diego dormia escondido na zona oeste. Ainda não havia encontrado o alvo.
Clóvis terminou seu ultimo relatório bimestral para apresentar ao secretário de segurança e por aquele dia, se não tivesse mais ocorrências, não teria mais nada a fazer. Pelo menos nada que pudesse esperar até o dia seguinte.
Voltou seus pensamentos para o caso de Romeo. No jornal, outras notícias substituíram o nome do bandido e davam mais atenção em como seriam as votações para deputados na Cidade Doeste. Mesmo assim, ele achava um caso misterioso.
Um homem que é procurado sem acusações e só será entregue a recompensa se for entregue vivo. Ao conhecer o meliante, é alguém que perdeu a memória de dois meses até o dia atual e se movimenta e atira horrores. Era algo, no mínimo, curioso.
Ele teve uma idéia, na qual, admitia, deveria ter pensado muito antes. Quem dava a ordem para a elaboração dos cartazes eram os governadores, a partir dos relatórios entregues pela polícia e analisados pelo secretário de segurança. Sendo assim, com o último relatório enviado, Clóvis pediria as motivações da criação dos cartazes para matéria de investigação. Dependendo da resposta do governador, poderia ter uma idéia do que era aquele garoto.
O trem já partira de Cidade Docentro e agora seguia rumo a Cidade Delleste. Aboré encarava a janela pensativo. As palavras de Vânia não lhe saíam da mente “Se você não for ver Gilmar por bem, eles vão pegar a garota”. A traição, o jeito como sua amiga de infância dissera e lhe propusera conversar com o líder da RN é que o machucavam.
Ele olhou para Sophia mais uma vez, que olhava para o teto. Ela olhou de volta e mexeu a sobrancelha, como que um cumprimento. Aboré sorriu e começou a puxar papo com a menina. Qualquer conversa era melhor do que ficar se torturando com aqueles pensamentos. Eles falaram sobre os vestidos que ela vira na loja e sobre quais ela queria.
Aboré gostava muito daquela menina.
Já passava a tarde daquele dia. Logo iria escurecer. Diego começava a acordar em Cidade Doeste para continuar sua caça ao careca com a maleta. Orlando era o nome do cara, se não se enganava. Mas ele mesmo sentia que não seria capaz de encontrar alguém daquele jeito naquela cidade enorme.
Romeo, por sua vez, vagava só. Conseguira despistar os caçadores de recompensa e agora se concentrava em cumprir a sua missão. A ferida no ombro só ardia e ele já conseguia mover consideravelmente o seu braço.
Envolto em seus pensamentos, em suas recordações (ou o que sobrou delas) e na sua enorme vontade de ter suas armas de volta, Romeo mais uma vez recebeu uma chamada de seu instinto. Instinto? Não sabia. Somente naquele dia, já tivera várias. Mas era algo que vinha de dentro. Algo como um caçador que sente o cheiro da presa.
Era isso. No fundo, no seu inconsciente ele sentia onde poderia estar o seu alvo. Com o sol já se pondo, ele parou para se concentrar e deixar fluir aquilo que o chamava. Um sentido, apontando uma direção a seguir.
Ele estava sentindo Orlando Kraft.
Naquela cidade, o cenário de uma nova Era estava sendo desenhado por aqueles homens. Todos estavam cumprindo o seu papel.
Escrito por Antero Filho às 11h42
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